Ela tinha 15 anos quando os viu pela primeira vez. Era o ano de 1998 e uma intensa onda pop invadia as rádios, as revistas e os canais de música do país. Grupos de meninos, grupos de meninas, grupos de irmãos, cantoras solo, todos disputavam a mesma fatia de mercado com canções que soavam parecidas para uns e faziam toda a diferença para outros. Eles faziam parte deste movimento e estavam lá, numa fita de vídeo gravada por um amigo, com uma seleção de videoclipes que faziam sucesso na década de 90, mas de início, ela nem deu muita atenção. “Mais um grupinho pop”, pensou.
O que ela não sabia era que aquele grupinho se tornaria parte de sua vida, pelos próximos 13 anos. E de uma maneira muito intensa, como nenhum outro grupo o fez.
Ciente da febre de bandas gringas que estourava por aqui, a professora de inglês solicitou um trabalho sobre música americana. Não demorou muito até que a escolha acontecesse: a amiga mais antenada foi quem deu idéia. “Vamos falar sobre aqueles meninos que você viu na fita do fulano... aqueles do clipe das cadeiras, lembra? Tenho bastante coisa sobre eles em casa”.
Ah, sim. Os meninos que dançavam com cadeiras. Ela se lembrava, agora. Na época, uma revista adolescente havia lançado uma edição especial sobre o grupo, com uma fita de vídeo que reunia os principais clipes lançados por eles até o momento. Este era o material que a amiga disse ter em casa. Ok, falaremos sobre eles, então. “Traremos a fita e passaremos os clipes para a turma. Será legal”, pensou ela.
Um tanto CDF - como sempre foi - a garota, antes de qualquer coisa, levou a fita para casa, a fim de conhecer melhor o assunto de seu trabalho escolar.
Foi aí que tudo realmente começou. A partir deste dia, não demorou muito até que eles deixassem de ser “mais um grupo” e se tornassem seus ídolos. Os maiores até aquele momento. Mal sabia ela, que eles seriam os maiores de toda a sua vida.
Um cd hoje, uma revista amanhã e assim o fanatismo da garota por estes cinco meninos americanos foi crescendo e tomando uma proporção que ela já não conseguia mais controlar. Pôsteres, fita de vídeo, gravações de programas de TV, tudo isso se tornou rotina para ela. Por vários anos.
Conforme o fascínio e a admiração iam crescendo, crescia também o desejo de ver os meninos tocando ao vivo em seu país. Entrava ano e saía ano, os boatos surgiam, mas nunca eram confirmados. E ela se agarrava em cada pontinha de esperança que pudesse existir, em cada manchete falsa que era publicada nas revistas, talvez com a intenção de vendê-las (como se precisasse... Uma simples foto dos cinco era o bastante para esgotar a edição em quase todas as bancas).
Durante anos, a menina sonhou com isso. Com o dia em que teria a chance de vê-los e mais: com o dia em que eles a veriam. E saberiam do seu amor, da sua dedicação, da sua admiração e da sua fidelidade.
Eles ainda não sabiam, mas eram seus amigos. Bom, pelo menos quatro deles eram amigos. Por um, em especial, ela nutria um sentimento diferente, ainda mais forte. Tratava-se de uma paixão platônica, mesmo. Imaginava como seria ser o alvo daquelas canções românticas. Classificava-o como “menino perfeito”, afinal, que outro garoto de 18 anos dizia coisas como “Tudo que eu faço é por você”, “eu nunca vou quebrar seu coração”, ou ainda “eu prefiro morrer do que viver sem você”. Era a personificação de tudo aquilo que ela buscava em alguém. E ele estava lá, bem longe dela. De forma completamente inalcançável.
Ela sabia que era impossível tê-lo. Mas gostaria que ele, ao menos, soubesse que ela existia. E também queria que, mesmo por alguns segundos, ela pudesse olhar para ele. Só para ele. E sentir que ele estava olhando de volta. Para ela, isso bastaria.
Em 2001, o que começou como um boato, finalmente se confirmou: sua banda preferida vinha mesmo ao Brasil, com show agendado em São Paulo para os dias 5 e 6 de maio. Deus, como aquela notícia mexeu com ela. Precisava dar um jeito de ir. Era mais que um querer, era uma necessidade. Morar no interior, nessas horas, era um agente dificultador. Mas, numa sincera conspiração do universo, tudo deu certo e lá estava ela, naquele dia 5 de maio, em meio a milhares de pessoas no estacionamento do Anhembi, esperando seu maior sonho se realizar.
O show foi incrível, e durante todo o tempo, ela custou a acreditar que estivesse mesmo acontecendo.
Bom, os anos se passaram, a menina cresceu, mas a admiração pela banda estava sempre ali. As vezes escondida atrás de preocupações que a vida adulta trouxe, as vezes servindo como ponto de fuga para os problemas, talvez em momentos saudosistas, de uma época que ela sabia que não voltaria mais, mas os meninos estavam sempre presentes. Sempre.
Vez ou outra ela se lembrava do sonho daquela garota de 15 anos. A vontade que ela tinha de conhecer seus ídolos e de ser “conhecida” por eles também. Saber que eles a veriam, uma vez que fosse. Este sonho ainda não tinha sido realizado. Pudera, os meninos nunca mais voltaram ao Brasil, desde 2001. “Que bom que fui àquele show”, pensava. “Mal sabia que não teria outra chance”.
Mas a chance aconteceu, em 2009. A notícia foi recebida da mesma forma que há oito anos: com o coração disparado e lágrimas incontroláveis. “Vou ver os meninos de novo”, era a única coisa em que ela conseguia pensar. Talvez se chegasse cedo e conseguisse um lugar na grade, ela poderia ser vista por um deles. Ou, melhor ainda, por ELE. A preferência não tinha acabado. Na opinião dela, ele ainda era o mais bonito, o mais legal, o que cantava melhor. Os anos não a fizeram mudar. Ela sabia que, no fundo, havia apenas envelhecido um pouco. Será que eles ainda lotariam um show? Será que ainda existiriam fãs como ela? Nada disso importava. Seu ingresso Premium estava garantido (graças ao 13º salário) e ela estaria lá.
Mesmo chegando cedo, o tão sonhado lugar na grade não aconteceu. O empurra-empurra do show, a falta de educação das outras fãs fez com que ela abdicasse do posto e resolvesse ir para o final do seu setor, curtir o show com tranqüilidade. Naquele momento ela queria apenas uma companhia: a de suas lágrimas. E como elas rolaram, meu Deus, do começo ou fim. Era impossível cessá-las.
Depois de tantos anos, a magia ainda era a mesma. A paixão ainda era a mesma. E a zuação por parte dos amigos por ela ainda ser fã de uma boy band também continuava. Nada que importasse. Personalidade forte sempre foi sua característica.
Mas voltemos a falar do sonho, que veio a se realizar 13 anos depois da primeira vez em que ela viu aquele clipe das cadeiras. O ano era 2011 e a turnê dos seus eternos meninos voltaria ao seu país. Mais uma vez os ingressos foram comprados com rapidez, mas de certa forma, desta vez isso não era o bastante. Queria mais. Queria olhar pra eles e queria que eles a vissem. De certa forma, ela ainda “devia” isso para a garota de 15 anos que ficou escondida em algum ponto de seu passado. Chegara a hora de acertar essas contas.
Uma amiga facilitou todo o processo e, no dia 26 de fevereiro, lá estava ela, a um passo de ver seus ídolos de perto, pela primeira vez (sim, pra ela os shows não contavam... eles não a conheciam ainda).
As portas se abriram, a fila se formou a e a ansiedade começou a surgir. Agora com 27 anos, a menina tentou abafar esse sentimento de todas as maneiras. “Se enxerga, garota, você já tem quase 30 anos. Aja como tal”. E essa briga entre a mulher de quase 30 e a adolescente de 15 durou 3 longas horas. Até que ela se viu diante do palco, com um grupo seleto de jovens da mesma faixa etária que ela, e, de repente, ELE entrou.
Nesta hora a mulher de quase 30 falou mais alto e ela controlou muito bem suas emoções. Embora a menina de 15 nunca tenha sido do tipo histérica, ela chorava sempre copiosamente, de maneira que as pessoas se preocupavam com isso. Achavam que ela estava passando mal ou coisa parecida. Mas desta vez, as lágrimas foram contidas. Pelo menos ate que eles começassem a cantar Incomplete. Era uma das músicas que ela gostava bastante.
Embora houvesse quatro cantores no palco, sua atenção era voltada apenas para um deles. Dois, no máximo. Naquele momento, o relógio andava mais rapidamente do que o normal, e o ensaio terminou.
Hora da foto. A tão sonhada foto. Eles olhariam para ela. ELE olharia para ela. Os minutos que se seguiram não ficaram muito bem definidos em sua mente. Ela se lembra de te-los cumprimentado e de ter travado ao olhar para ELE. Por segundos, era difícil acreditar que depois de tanto tempo, tanto choro, tanto sonho, ele estivesse ali. E ele não tinha a mínima noção de quanto significou para ela. Da importância que teve em sua vida. Ela podia ter dito, tentado explicar, mas não o fez. Preferiu apenas olhar, absorver aquele momento de maneira quieta, quase religiosa.
E ele não era o cara “legal” e expansivo que demonstrava ser. Estava com o semblante fechado, parecia anestesiado, distante de qualquer emoção que estivesse rolando com a aquela garota. Ela olhou para a foto, sorriu (ou tentou sorrir, ela não se lembra muito bem), olhou para trás, agradeceu e foi embora.
O sonho da menina de 15 anos estava, finalmente, realizado. Por incríveis 5 ou 6 segundos, ELE havia olhado para ela. E se é verdade que olhares são melhores para expressar sentimentos do que as próprias palavras, naquele dia ele soube tudo aquilo que ela não conseguiu verbalizar.
Menina e mulher acertaram as contas, já não deviam mais nada uma a outra. Ambas estavam felizes. Muito felizes. E agora, aguardam juntas pela próxima vez.
Escrito por às 00h44 [ ] [ envie esta mensagem ] [link]









Leia este blog no seu celular